terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Algodão promete renascer nas plantações do Norte de Minas


   Mato Verde (MG), Catuti (MG) e Sertânia (PE) – O Norte de Minas Gerais quer voltar a ser referência da produção nacional de algodão, principal insumo da indústria têxtil e que virou um sinônimo de riqueza nos versos cantados por Luiz Gonzaga, destacados no alto da página. O chamado ouro branco, assim classificado na música Algodão, representou fonte importante de renda do Nordeste às terras mineiras. Em 2006, agricultores de Catuti e região, no Norte de Minas, plantaram 40 hectares da matéria-prima. Na próxima safra, a área prevista para a cultura chega a 500 hectares – aumento de 1.150%. A estimativa é de que sejam colhida cerca de 150 arrobas por hectare.

A esperança de que o ouro branco volte aos tempos de pujança em pelo menos parte do Norte mineiro se deve ao projeto Algodão, estruturado com o uso de sementes transgênicas e novas tecnologias na lavoura. Esse é o tema da terceira reportagem da série O Brasil de Gonzaga, que o EM publica desde domingo. O projeto, criado por cooperativas locais com o apoio da Secretaria do Estado de Agricultura, gerou entusiasmo entre os produtores, sobretudo nos mais antigos, que viveram a época de ouro do insumo.

Um dos agricultores mais animados com o projeto é Adelino Lopes Martins, o Dila, de Catuti. Ele acaba de plantar o ouro branco em 12,5 hectares. Para isso, recebeu do Programa Nacional de Fortalecimeto da Agricultura Familiar (Pronaf) um reforço de R$ 10 mil para custeio da plantação. Ele conta que em 2008 colheu 180 arrobas por hectare. "Agora, se São Pedro mandar chuva na época certa, desejo chegar a 200 arrobas por hectare", afirma.

Para ter ideia do que as lavouras de algodão já representaram para a economia local, na década de 1980 a cultura empregava cerca de 100 mil pessoas. Eram aproximadamente 130 mil hectares de plantio. A estimativa atual (500 hectares) se torna modesta quando comparada ao universo de três décadas atrás, mas é o primeiro passo para que lavouras da região voltem a florescer. 
“Corria muito dinheiro na região. Porém, depois de a produção cair, muita gente foi embora. As pessoas saíram em busca de emprego”, recorda Alcedino Teixeira de Brito, de 69 anos, morador de São João do Bonito, distrito de Mato Verde. Luiz Gonzaga retratou bem essa realidade. Na música que abre essa página, o Rei do Baião destaca: “Tem que suar muito pra ganhar o pão / E a coisa lá né brinquedo não / Mas quando chega o tempo rico da colheita / Trabalhador vendo a fortuna se deleita”.

O declínio da produção ocorreu em razão de uma praga conhecida por bicudo. O técnico agrícola José Tibúrcio de Carvalho Filho, responsável pelo projeto Algodão, assegura que as sementes transgênicas resultam em plantas mais resistentes ao invasor. Ele propagandeia que o programa foi apresentado na conferência Rio+20, no Rio de Janeiro, em junho, como uma das alternativas sustentáveis para áreas atingidas pelas estiagens.

O especialista explica que uma das vantagens da variedade transgênica é a redução da aplicação de inseticidas. Joaquim Orozimbo, ex-técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG) em Porteirinha, está confiante na volta por cima da cultura do algodão: "A região era rica e todo o comércio girava em torno do algodão. Na época da colheita (de março a junho), as pessoas ganhavam muito dinheiro”, recorda.

Para evitar que o bicudo e a seca façam o projeto naufragar, o técnico agrícola José Tibúrcio diz que os agricultores vão receber orientações técnicas e apoio tanto na colheita quanto na venda da matéria-prima. Uma usina de beneficiamento de algodão deverá ser disponibilizada aos produtores. O principal alvo entre os clientes da produção é a Coteminas, fundada pelo ex-vice-presidente da República José Alencar (1931-2011) em Montes Claros, distante 200 quilômetros de Catuti.

FÁBRICA A bonança gerada pelo ouro branco não se espalhou apenas pelo Norte de Minas. O sertão de Pernambuco também gozou da renda garantida pela cultura. Tanto foi assim que um distrito do município de Sertânia ganhou como nome de batismo a expressão Algodões. Os moradores de lá viveram uma época de fartura. “A produção seguia para São Paulo. Havia muitos empregos e já tivemos até uma fábrica para descaroçar o algodão. Hoje, o imóvel está abandonado, não há mais empregos e renda aqui”, compara Jaime Chaves Sampaio, de 71 anos, e que já ganhou a vida nas lavouras do ouro branco.

Jaime mora próximo à Rua Estanislau Ventura Chaves, que homenageia o dono da fábrica desativada. “Em 1930, quando a produção era grande, ele tinha cinco caminhões, numa época em que veículos custavam caro. O imóvel, depois da desativação da fábrica, abrigou uma igreja evangélica e, agora, está vazio”, lamenta.


Fonte:estadodeminas

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